Habib’s busca proteção judicial para reorganizar dívida superior a R$ 312 milhões
- 3 de agosto de 2026
Categorias: Direito Empresarial

O grupo responsável pelas marcas Habib’s e Ragazzo conseguiu uma proteção judicial temporária contra ações de cobrança enquanto negocia uma dívida de R$ 312,4 milhões. A medida alcança 174 empresas do conglomerado e cria um período de estabilidade para a tentativa de reestruturação financeira.
O Grupo Gennius Brasil, controlador da rede Habib’s, recorreu à Justiça de São Paulo para suspender temporariamente execuções e cobranças promovidas por seus credores.
A decisão concedeu um período de proteção de 60 dias, válido até o início de setembro de 2026. Durante esse intervalo, as empresas incluídas no processo ganham espaço para negociar seus compromissos financeiros sem a pressão imediata de bloqueios, penhoras ou venda desordenada de ativos.
A dívida informada pelo grupo chega a R$ 312,4 milhões, sendo que mais de R$ 300 milhões estão relacionados a instituições financeiras. A forte concentração do passivo bancário evidencia o impacto que juros, garantias, vencimentos e exigências de liquidez podem exercer sobre grandes operações empresariais.
Antes de solicitar a proteção judicial, o conglomerado já havia iniciado um procedimento no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania, o Cejusc, com o objetivo de buscar uma renegociação mediada com os credores.
A Justiça também determinou que fornecedores essenciais não interrompam o fornecimento de produtos ou serviços apenas por causa das dívidas que estão sendo negociadas, desde que as novas operações sejam pagas à vista. A finalidade é preservar a continuidade das atividades e evitar que a crise financeira impeça o funcionamento cotidiano dos restaurantes.
O grupo possui uma estrutura societária ampla, formada por 174 empresas e marcas como Habib’s, Ragazzo, Tendall Grill, Mita e Mercato Express, além de sociedades ligadas aos setores imobiliário e de participações. A rede reúne centenas de restaurantes, entre unidades próprias e franquias.
O caso demonstra que faturamento elevado, marca consolidada e presença nacional não eliminam riscos financeiros. Empresas de grande porte também podem enfrentar dificuldades quando o endividamento cresce mais rapidamente do que a capacidade de geração de caixa.
Para empresários, alguns pontos merecem atenção:
1. Endividamento precisa ser acompanhado antes da crise
Não basta observar apenas o valor total das dívidas. É necessário avaliar prazos de vencimento, taxas de juros, garantias oferecidas, cláusulas de antecipação e concentração de crédito em poucos bancos. Uma empresa pode apresentar bons resultados operacionais e, ainda assim, enfrentar falta de caixa para pagar obrigações de curto prazo.
2. Estruturas societárias complexas exigem governança integrada
Quando um grupo possui dezenas de empresas, é fundamental definir claramente quais sociedades concentram operações, imóveis, marcas, dívidas, contratos e garantias. A ausência de separação patrimonial, contábil e administrativa pode facilitar a extensão de uma crise para empresas que, isoladamente, seriam saudáveis.
3. Blindagem patrimonial não significa esconder patrimônio
A proteção judicial concedida ao grupo não representa perdão de dívidas nem autorização para afastar credores de forma definitiva. Trata-se de uma medida temporária destinada a preservar a atividade enquanto as partes negociam. A verdadeira blindagem patrimonial deve ser preventiva, lícita e baseada em organização societária, contratos bem elaborados, governança, planejamento sucessório e separação efetiva entre patrimônio pessoal e empresarial. Transferências realizadas depois do surgimento da crise podem ser questionadas judicialmente e até anuladas.
4. Contratos com fornecedores precisam prever cenários de instabilidade
Empresas que dependem de abastecimento contínuo devem analisar cláusulas relacionadas a inadimplência, interrupção do fornecimento, pagamentos antecipados, garantias e renegociação. Essa atenção é ainda mais importante em redes de alimentação, varejo e franquias, nas quais a falta de um insumo pode comprometer toda a operação.
5. Franqueados e parceiros devem acompanhar a saúde do grupo
Embora cada unidade possa possuir sua própria realidade financeira, dificuldades enfrentadas pela franqueadora podem afetar fornecimento, marketing, tecnologia, reputação da marca e suporte operacional. Antes de investir em uma franquia, o empresário deve examinar a Circular de Oferta de Franquia, os balanços disponíveis, os processos judiciais relevantes e a capacidade financeira da estrutura responsável pela marca.
O episódio envolvendo o Habib’s reforça que crescimento sem controle financeiro pode aumentar a vulnerabilidade de qualquer grupo empresarial. Segurança jurídica, gestão de caixa, governança societária e proteção patrimonial preventiva são pilares para atravessar períodos de instabilidade sem comprometer todo o negócio.
Fonte: BP Money