Disputa na Mascavo expõe risco de sócio majoritário sem controle efetivo da operação
- 23 de setembro de 2026
Categorias: Direito Empresarial

A crise societária envolvendo Mari Saad e os investidores da Mascavo ganhou um novo capítulo após a Black Rocket contestar publicamente as declarações da empresária. A companhia afirma que o acordo entre os sócios foi respeitado e que obrigações financeiras, operacionais e tributárias vêm sendo cumpridas, enquanto Mari sustenta que perdeu acesso e influência sobre informações relevantes da operação.
A Black Rocket, sócia da Bikini Cosméticos, empresa responsável pela marca Mascavo, apresentou sua versão sobre o conflito societário que envolve a influenciadora e empresária Mari Saad.
A manifestação ocorreu depois de Mari anunciar que deixaria de participar da administração da marca. Embora ela permaneça formalmente como sócia majoritária, afirmou publicamente que já não tinha o nível de controle e de acesso às informações da companhia que esperava ter dentro da sociedade.
Segundo a Black Rocket, entretanto, a operação estaria seguindo o que foi definido originalmente entre os sócios. A empresa sustenta que havia uma divisão clara de responsabilidades: áreas relacionadas a marketing, desenvolvimento de produtos, portfólio e embalagens não seriam de sua responsabilidade direta, enquanto a companhia teria assumido funções ligadas à estruturação e ao crescimento operacional do negócio.
A Black Rocket também afirma ter realizado os aportes financeiros necessários à operação e diz que os pagamentos e repasses previstos entre os sócios, incluindo pró-labore, foram efetuados conforme os acordos existentes. A companhia sustenta ainda que as obrigações fiscais relacionadas às atividades sob sua responsabilidade foram atendidas.
Um dos pontos centrais da divergência envolve justamente o acesso às informações da empresa. Mari relatou dificuldades para acompanhar dados financeiros, estoques, vendas e outras informações operacionais. Já a Black Rocket afirma que os sócios tiveram acesso às contas e aos relatórios do negócio. Portanto, existem versões conflitantes sobre a forma como a governança e o fluxo de informações funcionaram na prática.
A discussão já chegou ao Judiciário. Segundo a Black Rocket, sua defesa vem sendo apresentada desde março de 2026 e pedidos formulados pela outra parte foram rejeitados em três oportunidades até o momento, inclusive em instâncias superiores. Isso não representa, por si só, uma decisão definitiva sobre todo o conflito societário, que permanece em discussão.
Apesar da disputa, a Mascavo continua em operação, enquanto Mari Saad anunciou que pretende desenvolver um novo projeto no segmento de beleza.
Para empresários, o caso traz uma lição importante: ter a maior participação societária não significa necessariamente ter controle operacional absoluto sobre uma empresa.
Percentual de quotas ou ações, poder de administração e acesso à informação são temas diferentes. Eles precisam estar claramente disciplinados no contrato social, acordo de sócios e demais instrumentos de governança.
Na prática, uma estrutura societária mais protegida deve prever, entre outros pontos:
- quais decisões dependem da aprovação de cada sócio;
- quem administra contas bancárias, estoque, fornecedores e contratos;
- quais informações financeiras devem ser disponibilizadas e com qual periodicidade;
- regras para aportes de capital e distribuição de resultados;
- limites de atuação dos administradores;
- procedimentos em caso de impasse entre sócios;
- critérios de compra e venda de participações;
- mecanismos de saída, exclusão ou dissolução da sociedade;
- responsabilidades sobre produto, marketing, operação e atendimento ao consumidor;
- proteção da marca, da imagem dos fundadores e de outros ativos intangíveis.
O episódio também mostra por que o acordo de sócios não deve ser tratado apenas como um documento para organizar percentuais. Ele funciona como uma verdadeira arquitetura de poder dentro da empresa.
Quando uma marca está diretamente associada à imagem de um fundador ou influenciador, o risco é ainda maior. Se a pessoa empresta reputação ao negócio, mas não possui instrumentos suficientes para acompanhar decisões sobre produto, qualidade, atendimento e operação, pode surgir um desalinhamento entre risco reputacional e poder de decisão.
Outro ponto relevante é a gestão de conflitos. Uma divergência societária que chega às redes sociais pode atingir consumidores, fornecedores, colaboradores, investidores e a própria avaliação econômica da empresa. Por isso, contratos bem estruturados costumam prever mecanismos de negociação, mediação, arbitragem ou outras formas de solução de impasses antes que a crise comprometa o negócio.
Do ponto de vista patrimonial, conflitos desse tipo também reforçam a importância de separar adequadamente patrimônio pessoal, participações societárias e demais investimentos dos envolvidos. Holdings e estruturas patrimoniais podem fazer parte desse planejamento, desde que tenham finalidade econômica legítima e estejam alinhadas às regras societárias, tributárias e sucessórias aplicáveis.
O caso Mascavo mostra que sociedades empresariais precisam de muito mais do que alinhamento comercial entre os fundadores. Governança, acesso à informação, divisão objetiva de poderes e regras de saída precisam ser definidos antes que apareçam os conflitos.
Crescimento sem estrutura jurídica pode transformar divergências administrativas em disputas capazes de afetar patrimônio, reputação e continuidade do negócio.
Fonte: Estadão